Aceitas, claro que aceitas! Afinal um filho é um filho e uma mãe jamais renuncia àquele amor que nasce dentro de nós a cada suspiro, em todos os minutos, nos choros e nas gargalhadas, sem excepção. Aceitas, mas não consegues abrir as portas a tantas cores tão diferentes do que te habituaste a vê-lo usar.
Acalmas as águas, é o teu papel, “Está tudo bem, vai ficar tudo bem” e dentro de ti um nevoeiro mais espesso do que leite separa-te do mundo, e dele, o teu filho que aceitas (será?) mas que não compreendes. E então sorris e sais de mansinho, deixando a tranquilidade do desconhecido atrás de ti.
Passas a(s) noite(s) e, secretamente, esperas que tudo não passe dum sonho, que tudo esteja igual à realidade segura, que conheces e sabes ler. Mas o fato que ontem vestiu é o mesmo com que hoje te diz “Olá”. E tu a assobiar para o lado, a não querer ver, a fingir que não o ouves, enquanto as tais cores que até pensavas conhecer, afinal parecem-te tão estranhas, tão impossíveis de… aceitar.
Manténs o sorriso e a certeza de que “está tudo bem”, mas na verdade não está. O armário escancarado olha para ti e desafia-te a abrir as portas do teu, a procurar alguma peça que faça ‘pan-dan’ com as dele, a vestires a pele da mãe que… aceita.
Enquanto o Sol gira em torno da Terra, tu danças com palavras, conceitos, nomes que nem sabes pronunciar e que, na verdade, ultrapassam os limites do que conheces. E então dizes, convencida do teu não-preconceito que “nunca vi nada que me leve a acreditar”. Na verdade estabeleces uma linha até onde vai a abertura das portas do teu armário e, como tudo o que está para cá dessa linha é compreensível, assumes-te como mãe aberta e liberal. Mas não o és. Apenas finges acolher o teu filho sem o fazer plenamente.
Vais com ele ao médico e procuras o psiquiatra, na esperança de comprovar as tuas ideias e limitações, mas em frente do apoio incondicional, as tuas certezas abalam, mas não caem, não ainda.
A poeira assenta e tropeças em quem te explica os conceitos e as palavras, aquelas que continuas a não saber pronunciar, e te mostra outros armários escancarados. Lançando os dados assim, no ar, numa realidade tão irreal quanto distante, parece tão mais fácil de compreender, de acolher. Esforças-te por fixar as palavras, pronunciar os conceitos e entender as mil e uma combinações que te são apresentadas numa só mão, como um qualquer menu de snack bar.
Vais para a cama e tudo o que achavas saber cai perante realidades tão disjuntivas. Secretamente (até para ti própria) continuas a desejar que a verdade do teu filho seja, pelo menos, das mais comuns. Por egoísmo, talvez, mas também pela antecipação dum futuro atribulado, difícil e previsivelmente doloroso, para ele.
Mãe

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