sexta-feira, 25 de novembro de 2022

reVOLTA

Na esperança de que tudo ficasse num impasse

Antes do nada que ocupou o espaço e abafou o ar


Na volta da onda se levantou e arrasou a praia

Fica a revolta de perder o recorte das dunas


Na senda duma realidade lembrada, já morta

Assenta a vontade de encontrar o cais perdido


No ventre de todas as narrativas agora possíveis

Nasce a impossibilidade de encerrar o capítulo


Na esperança de que tudo não passe de um nada

Fica o amargo de saber que toda a verdade é clara


Mãe




domingo, 6 de novembro de 2022

ArmáRIO


Um dia, uma noite, uma tarde… o teu filho pega-te na mão e, assim, sem aviso e sem rede, abre a porta do armário e deixa cair o mais disjuntivo fato de gala com que algum dia pensaste vê-lo.

Ficas atordoada, baralham-te as palavras e os conceitos, que dançam à volta das portas do teu próprio armário. Portas que sempre achaste abertas de par em par para todas as verdades existentes, mas que naquele preciso momento custam a abrir para acolher quem pensavas conhecer tão bem, desde o berço, ou melhor antes do berço, muito antes, e que agora te olha com os olhos de sempre mas com um olhar diferente, distante, que não sabes ler ou entender.

Aceitas, claro que aceitas! Afinal um filho é um filho e uma mãe jamais renuncia àquele amor que nasce dentro de nós a cada suspiro, em todos os minutos, nos choros e nas gargalhadas, sem excepção. Aceitas, mas não consegues abrir as portas a tantas cores tão diferentes do que te habituaste a vê-lo usar. 


Acalmas as águas, é o teu papel, “Está tudo bem, vai ficar tudo bem” e dentro de ti um nevoeiro mais espesso do que leite separa-te do mundo, e dele, o teu filho que aceitas (será?) mas que não compreendes. E então sorris e sais de mansinho, deixando a tranquilidade do desconhecido atrás de ti.


Passas a(s) noite(s) e, secretamente, esperas que tudo não passe dum sonho, que tudo esteja igual à realidade segura, que conheces e sabes ler. Mas o fato que ontem vestiu é o mesmo com que hoje te diz “Olá”. E tu a assobiar para o lado, a não querer ver, a fingir que não o ouves, enquanto as tais cores que até pensavas conhecer, afinal parecem-te tão estranhas, tão impossíveis de… aceitar.


Manténs o sorriso e a certeza de que “está tudo bem”, mas na verdade não está. O armário escancarado olha para ti e desafia-te a abrir as portas do teu, a procurar alguma peça que faça ‘pan-dan’ com as dele, a vestires a pele da mãe que… aceita.


Enquanto o Sol gira em torno da Terra, tu danças com palavras, conceitos, nomes que nem sabes pronunciar e que, na verdade, ultrapassam os limites do que conheces. E então dizes, convencida do teu não-preconceito que “nunca vi nada que me leve a acreditar”. Na verdade estabeleces uma linha até onde vai a abertura das portas do teu armário e, como tudo o que está para cá dessa linha é compreensível, assumes-te como mãe aberta e liberal. Mas não o és. Apenas finges acolher o teu filho sem o fazer plenamente.


Vais com ele ao médico e procuras o psiquiatra, na esperança de comprovar as tuas ideias e limitações, mas em frente do apoio incondicional, as tuas certezas abalam, mas não caem, não ainda.


A poeira assenta e tropeças em quem te explica os conceitos e as palavras, aquelas que continuas a não saber pronunciar, e te mostra outros armários escancarados. Lançando os dados assim, no ar, numa realidade tão irreal quanto distante, parece tão mais fácil de compreender, de acolher. Esforças-te por fixar as palavras, pronunciar os conceitos e entender as mil e uma combinações que te são apresentadas numa só mão, como um qualquer menu de snack bar.


Vais para a cama e tudo o que achavas saber cai perante realidades tão disjuntivas. Secretamente (até para ti própria) continuas a desejar que a verdade do teu filho seja, pelo menos, das mais comuns. Por egoísmo, talvez, mas também pela antecipação dum futuro atribulado, difícil e previsivelmente doloroso, para ele.


Mãe 



quinta-feira, 3 de novembro de 2022

LÁ fora...

Sei que estou aqui, neste corpo. Algures no reflexo deturpado, que me espreita no escuro das manhãs sempre iguais.

Obrigo-me a levantar, vestir, comer... e espero encontrar-me ao canto de uma hora qualquer que desenrola o fio dos dias que passam. Iguais.

Num gesto de coragem, que teimam em traduzir por preguiça, imagino um quadro onde não sou assim, mas igual.

E dentro dessa narrativa, percebo-me parte do todo que me envolve. Vejo-me perto do que todos os dias procuro. Ouço-me com voz própria, destemido. 

Mas fora do quarto, o espelho dos teus olhos conta-me outras histórias. E faz-me perguntas. Tantas perguntas que gostava de saber responder, a mim mesmo. E que sem explicação ficam solteiras, às voltas em busca da sua verdade enquanto ecoam o peso da minha culpa, que acaba por morrer em profunda solidão.

Deixo que as horas me dêm força para mais uma viagem ao mundo dos outros. Daqueles que, por capricho divino, se reconhecem individualmente e se relacionam entre si naquela paz que, imagino, os beijou à nascença. Mas os meus movimentos são tão delicados e lentos, com medo de me afogar, que não são perceptíveis para eles.

E a cortina desce entre mim e o mundo, num movimento sempre igual. 

Chega a noite e o sono, embalado num comprimido dourado que abafa qualquer tentativa de sonho. E por instantes apaga-se o medo, por segundos calam-se as dúvidas, anula-se ou exponencia-se o cansaço.

Sei que estou aqui, neste corpo. Do lado de cá do reflexo matinal. Mas...

Lá dentro é tão difícil acordar. Cá fora não me consigo encontrar. 

Mãe 


DIFERENTE ano IGUAL

Porque um dia todos renascemos,  afinal, tão diferentes do que nascemos Porque hoje todos comemoramos, todos desejamos e ansiamos, renascer ...